É incrível como as coisas funcionam neste país, mas infelizmente as coisas não são pensadas como um todo, tentam solucionar os problemas apenas na ponta do iceberg, apenas para algumas pessoas, mas não para todos.
Vou dar 3 exemplos práticos, tolos, mas que servem para ilustrar como funcionam as coisas neste país:
1) Preferência dos idosos na fila do banco
2) Ônibus com espaço de cadeirante
3) Cotas em universidades
Aqui na minha cidade, Ribeirão Preto, existe uma lei municipal em que uma pessoa não pode esperar mais de 15 minutos em pé no banco, então o que fizeram? Colocaram mais caixas para atender? Não, colocaram mais cadeiras para as pessoas sentarem. As filas demoram 40 minutos se você tiver com muita sorte, 1 hora, 1 hora e meia, isso para nós, jovens. Não foi uma só vez que vi acontecer, mas já passei algumas vezes por essa experiência, de estar lá, quase 1 hora esperando, eis que chega um idoso, retira a senha, mal adentra o recinto bancário e a sua senha já é chamada lá na frente. Isso é revoltante! Não que os idosos não mereçam ser atendidos de prontidão, mas TODOS NÓS merecemos também! Como uma pessoa normal demora 1 hora na fila e um idoso demora 1 minuto? É muito desigual isso, tirando o fato de que os idosos são os que mais demoram no caixa, demoram a entender as instruções, causando um atraso ainda maior aos demais.
Quanto ao espaço dos cadeirantes, primeiramente eu queria deixar claro que eles precisam sim ter seu direito de ir e vir assegurado, merecem esse espaço dentro do ônibus, mas pelo menos aqui em Ribeirão Preto a coisa não funciona como deveria ser. Das muitas vezes que andei de ônibus, já vi muita gente que teve que ficar em pé ali no lugar do cadeirante devido a retirada dos assentos, em contrapartida, apenas uma única vez eu vi um cadeirante usar aquele espaço, o fato é tão raro que o motorista do ônibus nem sabia como operar o degrau da escada para o cadeirante. Quem conhece o sistema de transporte coletivo de Ribeirão Preto sabe que ele é uma lástima! Se você perder um ônibus, tem que esperar de 30 a 40 minutos para ele passar de novo, isso em dia de semana, de final de semana é coisa de 1 hora pra mais. Todos os ônibus aqui passam pelo centro da cidade, mas nem todo mundo quer ir para o centro, então o trajeto de bairro a bairro ou demora mais porque os ônibus têm que passar pelo centro ou então inexiste, além de causar um engarrafamento violento no centro da cidade em horários de pico.
O sistema de cotas em universidades públicas adotado pelo Brasil é uma coisa ridícula. Não que os cotistas não mereçam essas vagas, mas TODOS NÓS MERECEMOS estudar em faculdade pública. Eu, felizmente, consegui entrar na USP, estou no último ano de curso, em breve já estarei saindo dela, mas poucos sabem o quão difícil foi entrar lá, o quanto eu tive que estudar e me dedicar para poder entrar lá. Eu peço para que aqueles que acham que são só ricos que estudam em faculdade pública visitassem os cursinhos preparatórios e vejam quantos bolsistas que estão lá ralando que nem louco para conseguir entrar, ano após ano e nada conseguem devido ao alto grau de dificuldade e também devido a falta de dinheiro para bancar uma faculdade particular. O discurso pró-cota é muito bonito, mas na verdade está tirando o lugar de alguém que conseguiu uma vaga por mérito, devido a fatores que estão alheios ao esforço desta pessoa.
Mas o que eu quis mostrar com esses três exemplos? O que essas coisas tem em comum uma com a outra? Nos 3 casos eu vejo da seguinte forma, foi pensado em como melhorar o acesso de um devido grupo de pessoas em detrimento dos demais, não foram pensadas soluções definitivas, mas apenas soluções que deveriam ser emergenciais mas que sabemos que vai perdurar por muitos anos. Pra que melhorar o acesso de todos a um caixa de banco, afinal, só os idosos tem pressa, aliás, os idosos muitas vezes são aposentados, não trabalham, e você mero trabalhador, tem que perder seu horário de almoço inteiro ali, as vezes até extrapolar o horário. Pra que melhorar o sistema de transporte coletivo como um todo, ele já está muito bom, podemos tirar vagas de pessoas normais para oferecê-las aos cadeirantes, o cara tem que dar graças a Deus por ser perfeito e poder ficar em pé no ônibus, não precisa sentar. Pra que aumentar o número de vagas nas faculdades públicas? Pra que melhorar as escolas públicas? É só colocar cotas, assim podemos incluir mais as pessoas, assim todo mundo vai ter oportunidade de cursar uma faculdade pública, independente de sua origem.
BULLSHIT!
Vejo na televisão, no dia-a-dia, percebo o povo animado com o "crescimento" do país, como se de uma hora para outra o país se tornasse uma maravilha, simplesmente pelo fato do povo estar consumindo. O povo está consumindo, mas também está se endividando como nunca! Ovo de páscoa em 10x no cartão, passou o Natal e o cara ainda não terminou de pagar o ovo que ele comeu na páscoa!
As pessoas estão consumindo mais, isso é fato, mas a infra-estrutura do país continua uma PORCARIA! Serviços públicos, um lixo! Se o Brasil tem crescido é por conta da iniciativa privada, pois os gastos do governo em infra-estrutura para fornecer uma melhor qualidade de vida e a certeza de crescimento sem gargalos é quase zero.
E o que isso tem a ver com o assunto anterior? TUDO!
O povo brasileiro ao invés de lutar por reformas estruturais, tá todo feliz em poder gastar com o cartão de crédito novo que ganhou. A demora no banco não é culpa do idoso, as pessoas em pé no ônibus não é culpa do espaço do cadeirante, os jovens fora da universidade pública não é culpa dos cotistas, mas a culpa de tudo isso é do governo que não promove uma mudança na estrutura e principalmente nossa, que não exigimos nem do governo e nem das empresas as mudanças que achamos necessárias.
No caso dos bancos, se não houvesse uma puta sacanagem de deixar só 2 pessoas atendendo uma fila de 50 pessoas, não haveria a demora e então ninguém se importaria de ao invés de passar 10 minutos no banco, passar 11 ou 12 para dar preferência a um idoso. Se houvesse oferta de ônibus em mais horários e com rotas mais adequadas, ninguém precisaria ficar em pé no lugar do cadeirante. Se a escola pública fosse boa e se houvesse vagas suficiente para a população brasileiras nas universidades públicas, não haveria necessidade de cotas. Todas as mudanças demandam dinheiro e tempo, mas uma hora ou outra vão precisar ser feitas! Até quando vamos levando tudo com a barriga? Fingindo não estar inserido nos problemas que acontecem, fingindo não se incomodar com o que acontece?
Temos que pensar primeiramente no acesso, para depois pensarmos na questão da acessibilidade. Se a população tem acesso a serviços e produtos de forma satisfatória, não há problemas com a implantação de alguns privilégios, pois afinal não vai afetar tanto o cidadão comum e vai trazer benefícios aos que necessitam, mas quando os serviços e produtos já são insuficientemente oferecidos, qualquer privilégio, por mais merecido que seja, acaba se tornando em transtorno e peso para a população como um todo.
O Brasil precisa de sérias mudanças estruturais, tanto de infra-estrutura quanto de serviços públicos. Além disso, as empresas, incluindo aí os bancos, precisam parar de tratar o cliente (ou consumidor) como um idiota, oferecendo serviços e produtos bem meia boca por preços absurdos!
É, infelizmente o Brasil ainda está longe de ser aquela maravilha anunciada pelo Lula e pela Dilma.